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A charanga da LILI vol.1 nº.2 (2021)
ISSN 2764-166X

Um Doutor em música prá lá de especial!

Era uma vez uma menina chamada Lili que tinha muitos amiguinhos. Na casa em que ela vivia tinha um piano de brinquedo no qual ela fazia seus primeiros acordes, na clave de sol: dó - mi – fá – dó – ré – lá- sol – si. 

Ái, ái, ái... tapava as orelhas a Suzete, a cachorrinha de estimação da Lili, que sofria com aquela ladainha fora do tom.

Até que um dia, o Canarinho Lu, amigo da Lili e doutor em música decidiu dar um fim naquela questão e convidou a Gatinha Pintada e o Gatinho Ron-ron, para se reunirem.

- Como é que você pensa em abordar a Lili, perguntou o Gatinho Ron-ron. Ela não pode ficar chateada conosco, não é mesmo? Ela é nossa amiga e cuida de nós com muito carinho.

- Miau, miau... respondeu a Gatinha Pintada toda manhosa. Fala com jeitinho, viu Canarinho. Ela não pode se magoar!

- Falarei. Respondeu o Canarinho todo metódico. Vou oferecer-lhe algumas aulas particulares. Cobrarei tostão qualquer! Estejam certos, ela será uma ótima tocadora de piano de brinquedo.

E assoviando um sucesso de Cascatinha e Inhana..

 “...E a fonte a cantá, 
Chuá, chuá , 
E as água a corrê, 
Chuê, chuê...

O Canarinho Lu foi se achegando, ajeitou-se com jeitinho até se aconchegar bem próximo ao ouvidinho da Lili. Confortável fez um pedido inusitado:

- Toca Lili, toca dó, ré, mi, fá.

Com uma voz trêmula, Lili respondeu:
 
- Eu sempre fico na dúvida quanto aos sons. Confundo-me com eles.

- Você bem me conhece. Começou o Canarinho Lu, com aquele peito estufado, não se cabendo ante sua grande sabedoria. Sabe que já cantei em muitos lugares, mas me cansei dos palcos. Essa vida de muitas viagens, sono escasso e agitação não é para mim. Hoje organizo meu tempo na oferta de aulas particulares para pessoas especialíssimas, como você e também, para o meu descanso, visitas aos familiares, encontros com amigos, etc, etc, etc...  Já ouviu o meu solfejo???? 

" ...O tico-tico tá
Tá outra vez aqui
O tico-tico tá comendo meu fubá
O tico-tico tem, tem que se alimentar
Que vá comer umas minhocas no pomar..."

- Wow, que lindo! E olha que somos amigos, conversamos sempre, mas não tinha percebido o quão afinado e conhecedor de músicas é você! Naquele momento Lili foi toda ouvidos e embevecida com aqueles acordes tão ritmados e afinados quis saber como o Canarinho Lu fazia aquilo.

- Ah! Aprendi com meus pais, quando bem pequenino, um segredinho musical que ainda me acompanha. De tanto repeti-lo não mais o esqueci. Como se fosse um mantra, sabe... Nem bem o Canarinho Lu finalizou a explicação, Lili já emendou uma pergunta:

- Sério? Respondeu Lili, estupefata. Mas o que é um mantra?

- Mantra é algo que se deve repetir várias vezes ao dia. E, depois que você estiver com ele bem guardadinho na sua cachola é só você ajeitar os dedinhos no teclado e voilà!..

- Hum... você também fala francês? Você é demais!!!

- Não! Respondeu assim, meio sem jeito o Canarinho Lu, mas manteve aquela bossa de rapaz sério e garboso. Sei somente algumas palavrinhas que aprendi pelos palcos da vida, nada mais! 

Tudo compreendido, durante dias Lili repetia em voz alta o seguinte mantra: ‘fá-lá-dó-mi’ e ‘mi-sol-si-ré-fá’. E parece que deu certo!

Meses depois, lá estavam Lili e o Canarinho Lu apresentando um recital de músicas populares para os amiguinhos, que se organizavam na plateia do quarto rosa, o cantinho da Lili. E não é que de tanto ouvi-los até a plateia fazia coro?!!!

Fala de mim e o sol se refaz...(todos numa única voz).

Ao final, aplausos e mais aplausos!

Patiluc
 

A charanga da LILI vol.1 nº.1 (2021)
ISSN 2764-166X
 

Para os porquês, a compreensão do todo!

Depois de produzir o eBook “Ditos entre Metáforas”, no ano de centenário de Paulo Freire, decidimos garimpar alguns educadores que, assim como Freire, por questões políticas são lembrados esporadicamente ou ainda, esquecidos junto às teses e dissertações arquivadas nas bibliotecas universitárias. Minas são muitas e essa história começa assim...

Era uma vez uma menina que gostava de estudar. Moça de família, como diziam à época, no início do séc. XX, Lúcia, ainda pequena, costumava brincar de boneca ensinando-as a ler. Seu sonho maior era um dia se tornar uma professor, tanto que desde bem cedinho, Lúcia organizava suas alunazinhas, as bonecas e, repassava-lhes, em monólogo, os primeiros ensinamentos obtidos por ela, na escola. Como não poderia deixar de ser, persistente como só, Lúcia matriculou-se na Escola Normal, em Belo Horizonte, que naquela época, era o que havia de melhor no Estado, principalmente para aquela normalista que se tornaria professora primária, do então Grupo Escolar Afonso Pena, referência de ensino para a aplicação de uma política de reforma do ensino primário nas Minas Gerais.

Tanto esforço e não é que ela conseguiu uma bolsa de estudos para estudar nos Esteites?!!! Voltou cheia de gás e ideias, e nas malas bem guardados trouxe os pensamentos de Dewey. Jovem e astuta, Lúcia se atentou às chances que aquela experiência lhe dera e não se fez de rogada, aceitou o convite para o desafio de atuar, como professora, num curso com duração de dois anos, para a formação de um grupo cujo objetivo fosse propagar o movimento escolanovista. O que isso significava? Ah! Para a Lúcia seria venturar-se pelo engajamento de mudanças na educação. Aplicar os ensinamentos que obteve em Colúmbia, em Minas Gerais, um Estado conservador e resistente às alterações de rotina e de conduta. 

É preciso fazer aqui um parêntese para explicar que a década de 1920 marcou muitos eventos no Brasil dentre eles o movimento de reforma educacional, a semana de arte moderna, a modernização das cidades brasileiras com o processo de urbanização, ou seja, foi um período de profundas transformações, num país em franco desenvolvimento. Há aqueles que até dizem se tratar dos anos mais ‘loucos’ que vivemos no Brasil.

Mas, aqui estamos falando de educação então...

... Então Lúcia agarrou aquela chance com unhas e dentes! Boa combatente ergueu a bandeira da inovação. Para ela, era inadmissível alfabetizar sem contudo, compreender a necessidade da infância.  Como aprender algo sem compreender o significado das coisas? 

Água mole em pedra dura, Lúcia tanto bateu na tecla da superioridade do Método Global para Alfabetização que conseguiu fazer com que todo o Estado de Minas Gerais o utilizasse.

A receita era simples: contação de histórias com fundamentação teórica. Em resumo, o caminho era ir do geral para o particular. A criançada era alfabetizada a partir da contação de histórias, preparadas para essa finalidade, é claro! Primeiro o texto, lido e discutido pela professora, depois a frase, a sílaba, as letrinhas e seus sons... 

E assim foi, com a ajuda de suas alunas mais aplicadas, que Lúcia aliou os contos àquilo que a politica de urbanização brasileira, daquela época, exigia. Uma jogada de mestre! Ensinar o que precisava ser ensinado e que impactava no dia a dia das pessoas. Para Lúcia aquele método não se tratava de política mas, de educação! Ou melhor dizendo, foi um jeito mineiro de traduzir a ideia de democracia propagada pelos filósofos da época, em especial de seu maior ídolo, John Dewey, pragmático ou instrumentalista, levando-se em conta a seguinte frase: “as ideias só têm importância desde que sirvam de instrumento para a resolução de problemas reais”.

Por muito tempo, até meados dos anos 1990, vestígios de Lúcia podiam ser vistos por ali e acolá, nos escaninhos das escolas mais moderninhas, em Minas Gerais. Entrementes, outros movimentos por uma escola nova aconteceram e, o brilho de Lúcia foi se esmaecendo, porém, o desejo de alfabetizar os brasileiros e brasileiras, ah, isso não há de se esmorecer.

Patiluc