Logo Parimpar
youtube-Parimpar
Linkedin-Parimpar
Facebook-Parimpar

A charanga da LILI vol.1 nº.1 (2021)
ISSN 2764-166X
 

Para os porquês, a compreensão do todo!

Depois de produzir o eBook “Ditos entre Metáforas”, no ano de centenário de Paulo Freire, decidimos garimpar alguns educadores que, assim como Freire, por questões políticas são lembrados esporadicamente ou ainda, esquecidos junto às teses e dissertações arquivadas nas bibliotecas universitárias. Minas são muitas e essa história começa assim...

Era uma vez uma menina que gostava de estudar. Moça de família, como diziam à época, no início do séc. XX, Lúcia, ainda pequena, costumava brincar de boneca ensinando-as a ler. Seu sonho maior era um dia se tornar uma professor, tanto que desde bem cedinho, Lúcia organizava suas alunazinhas, as bonecas e, repassava-lhes, em monólogo, os primeiros ensinamentos obtidos por ela, na escola. Como não poderia deixar de ser, persistente como só, Lúcia matriculou-se na Escola Normal, em Belo Horizonte, que naquela época, era o que havia de melhor no Estado, principalmente para aquela normalista que se tornaria professora primária, do então Grupo Escolar Afonso Pena, referência de ensino para a aplicação de uma política de reforma do ensino primário nas Minas Gerais.

Tanto esforço e não é que ela conseguiu uma bolsa de estudos para estudar nos Esteites?!!! Voltou cheia de gás e ideias, e nas malas bem guardados trouxe os pensamentos de Dewey. Jovem e astuta, Lúcia se atentou às chances que aquela experiência lhe dera e não se fez de rogada, aceitou o convite para o desafio de atuar, como professora, num curso com duração de dois anos, para a formação de um grupo cujo objetivo fosse propagar o movimento escolanovista. O que isso significava? Ah! Para a Lúcia seria venturar-se pelo engajamento de mudanças na educação. Aplicar os ensinamentos que obteve em Colúmbia, em Minas Gerais, um Estado conservador e resistente às alterações de rotina e de conduta. 

É preciso fazer aqui um parêntese para explicar que a década de 1920 marcou muitos eventos no Brasil dentre eles o movimento de reforma educacional, a semana de arte moderna, a modernização das cidades brasileiras com o processo de urbanização, ou seja, foi um período de profundas transformações, num país em franco desenvolvimento. Há aqueles que até dizem se tratar dos anos mais ‘loucos’ que vivemos no Brasil.

Mas, aqui estamos falando de educação então...

... Então Lúcia agarrou aquela chance com unhas e dentes! Boa combatente ergueu a bandeira da inovação. Para ela, era inadmissível alfabetizar sem contudo, compreender a necessidade da infância.  Como aprender algo sem compreender o significado das coisas? 

Água mole em pedra dura, Lúcia tanto bateu na tecla da superioridade do Método Global para Alfabetização que conseguiu fazer com que todo o Estado de Minas Gerais o utilizasse.

A receita era simples: contação de histórias com fundamentação teórica. Em resumo, o caminho era ir do geral para o particular. A criançada era alfabetizada a partir da contação de histórias, preparadas para essa finalidade, é claro! Primeiro o texto, lido e discutido pela professora, depois a frase, a sílaba, as letrinhas e seus sons... 

E assim foi, com a ajuda de suas alunas mais aplicadas, que Lúcia aliou os contos àquilo que a politica de urbanização brasileira, daquela época, exigia. Uma jogada de mestre! Ensinar o que precisava ser ensinado e que impactava no dia a dia das pessoas. Para Lúcia aquele método não se tratava de política mas, de educação! Ou melhor dizendo, foi um jeito mineiro de traduzir a ideia de democracia propagada pelos filósofos da época, em especial de seu maior ídolo, John Dewey, pragmático ou instrumentalista, levando-se em conta a seguinte frase: “as ideias só têm importância desde que sirvam de instrumento para a resolução de problemas reais”.

Por muito tempo, até meados dos anos 1990, vestígios de Lúcia podiam ser vistos por ali e acolá, nos escaninhos das escolas mais moderninhas, em Minas Gerais. Entrementes, outros movimentos por uma escola nova aconteceram e, o brilho de Lúcia foi se esmaecendo, porém, o desejo de alfabetizar os brasileiros e brasileiras, ah, isso não há de se esmorecer.

Patiluc