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A charanga da LILI vol.2 nº.2 (2021)
ISSN 2764-166X

A normalista.

- Já comprei as cartolinas nas cores rosa, verde e branca e agora vou fazer os cartazes para dar a minha primeira aula utilizando o método que a professora ensinou na escola. Eu vou conseguir! Vou dar conta desse desafio! Pensava Tina em voz alta. 

O método global de contos em Minas Gerais virou moda e era comum que as meninas que sonhavam em se tornar boas professoras, passassem pela Escola Normal de Ensino. Argentina, conhecida entre as amigas por Tina, era uma dessas normalistas. 

- Eu anotei na minha caderneta os cinco passos para aplicar o método: (1) conto ou historieta; (2) sentenciação; (3) porção de Sentido; (4) palavração e, (5) silabação. Nossa será que eu vou me lembrar de tudo isso? Não posso titubear diante dos meus alunos.

- São só crianças, fica tranquila! Dizia Ana, outra normalista contemporânea de Tina.

- Você está louca? As crianças são importantíssimas para o futuro do nosso país. Eu quero fazer tudo direitinho, quero ser referência e um dia encontrar com meus alunos já crescidos e endireitados na vida. Eles me reconhecerão, com orgulho, e se referirão a mim como sendo a primeira professora deles. Eu ficarei emocionada...

- Nossa Tina, a louca é você. Acha que eu me contentarei com o reconhecimento dos alunos que mais velhos nem se deram conta da minha vida? Ah! Deixa prá lá, estou vendo o brilho nos seus olhos quando fala nessas aulas. Deixa-me contar uma novidade para você, o Antônio esteve lá em casa ontem à noite, foi pedir a minha mão em casamento. 

- Até que enfim, depois de dois anos de namoro, já não era sem tempo. E aí, você aceitou?!

- Claro que sim! Ele já está estagiando como engenheiro na Mannesmann. Papai disse que o futuro dele é muito promissor. Você sabe de quem eu verdadeiramente gosto, não é! Do Luiz... Nossa! Mas, como ele não me dá bola mesmo, o melhor é seguir com a segurança que o Antônio poderá me proporcionar. À propósito, eu e mamãe iremos à Igreja da Boa Viagem para averiguarmos com o Padre Celestino uma vaga para o próximo ano. Eu quero que seja em maio, o mês das noivas. Vai ser lindo! Uma formosura! Você nos acompanhará?

- Parabéns!!! Com certeza será magnífico. Vocês têm muito bom gosto. Tomara que consiga uma vaga, porque eu e Rodrigo não tivemos essa sorte. A fila de espera estava enorme, por isso nos casaremos em Lourdes. Não sei se poderei acompanhá-las na visita ao Padre Celestino, tudo dependerá do dia em que irão.

- E você e Rodrigo, como estão? O casório está próximo, ?! Perguntou Ana.

- É, e por conta disso tenho que acelerar com meus deveres, escola, casamento, organização da festa... É muita coisa, mas o Rodrigo tem me apoiado bastante. 

- Vocês nasceram um para o outro. Sonham em constituir família com muitos filhos povoando a casa ampla que estão construindo na Cidade Jardim. Concluía Ana, com uma pontinha de ironia, porque ela, a Ana, fez a Escola Normal só para sair de casa e ter mais tempo para bordejar.

O trololó se desenrolava enquanto Tina fazia a última prova do seu vestido de noiva.

- Você está esplendorosa! Confirmava Ana.

- Obrigada! Adoraria também ir com vocês à matiné no Pathé (o Cine Pathé, com era conhecido, foi uma tradicional e elegante casa de cinema que existia na Savassi e, infelizmente foi fechado em 1999), mas o dever me chama. Vou treinar a minha fala para as aulas que ministrarei amanhã. Depois me conta como foi o filme ‘E o vento levou’. Dizem que são quase três horas de sessão, mas vale a pena ver o Clark Gable. Ái que homem!!!

- Tchau então e boa sorte! Despediram-se entre beijinhos, abraços e sorrisos.

Tina pôs-se a selecionar a história que utilizaria e pensava tão alto que dava para ouvir seus pensamentos:

- Tenho que organizar um material que desperte o interesse das crianças. Vejamos qual será a história que eu vou contar, hummm... Ah!!! Já sei, vou começar com o "Joãozinho e Totó”.

No dia seguinte, pontualmente, lá estava Tina numa das salas de aula do Jardim de Infância Delfim Moreira. Nervosa, pediu licença à coordenadora, queria deixar tudo organizadinho, conforme a cartilha, enquanto as crianças estivessem no recreio.

- Tina, fique à vontade! É um prazer tê-la conosco! A coordenadora a acolheu com muito respeito. Apresento-lhe a Professora Marieta, nossa supervisora. Ela a acompanhará para dar-lhe o suporte necessário. Fique tranquila, suas aulas serão um sucesso! A sua turminha é composta por 20 alunos, todos com 6 anos de idade e que já foram pré-alfabetizados. Boa sorte!

Tina ajeitou os cabelos que saíram do prumo com todo aquele agito, tinha que estar impecável e dispôs adequadamente os cartazes nas paredes da sala de aula, de modo a facilitar a compreensão das crianças. Tão logo tudo se encontrava nos devidos lugares, as crianças, uniformizadas, entraram na sala, em fila indiana. Sentaram-se em suas respectivas carteiras escolares e só então disseram a uma só voz.

- Boa tarde Professora Tina!

- Boa tarde! Respondeu Tina. 

Marieta explicou as crianças que a Professora Tina estaria com eles por todo o semestre e ainda que durante esse período ela também acompanharia as aulas. Tudo dentro da normalidade!

- Crianças! Começou Tina. Eu tenho aqui uma história para contar para vocês! Vocês a ouvirão em silêncio e depois, juntos, repetiremos palavrinha por palavrinha, até que vocês as decorem. Prestem bastante atenção:

Totó está contente,
Au, au, au,
Que bom!
Eu vou a casa de Lili, 
Eu vou passear de automóvel.”

Gostaram da história? Perguntou Tina às crianças.

- Sim Professora Tina. Todos responderam.

- Então me respondam, quem faz au, au, au?

Alguém levantou a mão para responder.

- O cachorro da Lili!

- Muito bem! Respondeu Tina. Mas alguém se lembra qual é o nome do cachorrinho dessa história? E será que o cachorrinho é mesmo da Lili?

Era possível sentir uma boa empatia entre Tina e as crianças. Elas nem pestanejavam, tão atentas estavam à história. Mas como a Tina colocou uma pulguinha atrás de cada uma das orelhinhas das crianças com aquela última pergunta, todos preferiram se manter em silêncio. Sem muitas delongas e já preparada para aquele impacto, Tina prosseguiu:

- Vou contar a história novamente, só que agora faremos isso juntos. Sigam comigo aqui na cartolina e depois vou escrever palavrinha por palavrinha no quadro negro.

Semanas se passaram até que as crianças começaram a ler a história contada e repetida inúmeras vezes e, de diversas maneiras. A sensação era de que os alunos se apoderaram do texto e conseguiam manter conexão entre compreensão e leitura. Nenhuma desorganização, muita disciplina e segundo Tina, capacidade crítica, porque uma vez decorada a história eles poderiam recontá-la tranquilamente e até reescrevê-la. Ao que parece, seguindo a cartilha da Lili, tim-tim por tim-tim Tina se deu muitíssimo bem na escola, tanto que recebeu uma nota A+ da supervisora Marieta. 

O casamento com Rodrigo não impediu Tina de dar prosseguimento à sua vocação, continuar seu professorado no Delfim Moreira. Um casal significativo eram aqueles dois, bons parceiros, na alegria e na tristeza, se mantiveram juntos e criaram uma família encantadora.

Como tudo na vida tem começo, meio e fim, após alguns anos, com os filhos já crescidos e Rodrigo em fase de aposentação, Tina decidiu abandonar o magistério. Queria tempo para cuidar dos netos, com o mesmo carinho e desvelo que dispensava para seu esposo, seus alunos, filhos e empregados.

E a Ana?! Ah! A comadre Ana. A Ana foi madrinha de casamento da Tina e a Tina, madrinha do Tiago, filho da Ana com o Antônio. Elas foram amigas sinceras e presentes até o fim.


Patiluc