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A charanga da LILI vol.4 nº.2 (2022)
ISSN 2764-166X


Com tradução se fez política!

No Brasil, o período entre 1840 e 1889 foi marcado por algumas turbulências e transformações, dentre elas a campanha abolicionista, ocasionada pela pressão do governo inglês ao proibir o tráfico de escravos da África. O processo foi lento e doloroso, recheado por intrigas, artimanhas e malogros. A abolição do trabalho escravo seria, por certo, o desfecho final, além é claro, da debandada da família real para Portugal. Em meio a esse furdunço nasceu José Bento Renato de Monteiro Lobato, em São Paulo, na cidade de Taubaté, para sermos mais precisos.

A família de Lobato era proeminente, tradicionais fazendeiros do Vale do Paraíba e mantinha estreita relação com D. Pedro II. E, como é sabido por todos, D. Pedro II era um cara legal, um chapa, como diziam os adolescentes, amante das artes, preocupado com a cultura e talvez isso tenha indiretamente influenciado Lobato, enquanto criança e aflorado depois de adulto. 

Bem, bem... isso são elucubrações, palavras tiradas do glossário utilizado por Lobato em seus livros e publicações. Fato é que embora Lobato tenha estudado direito, o que ele apreciava eram as belas artes, em todos os sentidos. 

Como foi impedido de usar o pincel, por questões de ‘foro íntimo’, resolveu pintar o 7 com outras ferramentas. Sim, ele transportou das telas para o papel suas inquietações, seus desejos e observações e usou o lápis como o pincel. Seu frenesi pela escrita era tanto, que já na faculdade de direito se organizou com outros colegas para publicarem vários artigos e textos em revistas por eles mesmos editadas, ainda que a vida o empurrasse para o campo jurídico, afinal, mais adiante, tornou-se promotor de justiça de Areias, um município situado no interior de São Paulo. Foram sete anos de muito trabalho e aprendizado, dizia Lobato.

Homem de visão, Lobato vendeu as fazendas que herdou, pagou as dívidas adquiridas ao logo do processo de transição das oligarquias e com o dinheiro que sobrara, comprou a Revista do Brasil, ligada ao jornal o Estado de São Paulo. Esse foi o passaporte para ‘dá cá’, em alguns anos, conseguir, com o apoio de sua amada esposa, transformar seu patrimônio numa gráfica e editora. 

Entre tropeços e levantes, Lobato se manteve firme aos seus propósitos, ‘tornar o Brasil um país promissor’. Ele não só escreveu, produziu como traduziu muitas obras clássicas. Sabendo das dificuldades de introduzir no país a leitura, fazia versões de clássicos da literatura mundial, dando-lhes uma roupagem mais acessível para o leitor, num país de iletrados. 

Sonhava com um país desenvolvido, em que todos pudessem ter direitos, além dos deveres e das obrigações. Lutou por disseminar a cultura e tentou moldar uma nação próspera, intelectual e material. Ele foi um político, sem se meter a estar na política e foi covardemente eliminado da história, sendo lembrado somente como o criador do Sítio do Pica Pau Amarelo. 

Que pena! Poucos sabem que ele usou a tradução como uma silenciosa arma política!


Patiluc