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A charanga da LILI vol.5 nº.1 (2022)
ISSN 2764-166X


Educar é perigoso...

Provas bimestrais...

A turma inteira concentrada. Alguns alunos já começam a entregar seu trabalho. 

Do fundo da sala, ‘fiscalizo’ tudo, pedindo que, ao terminarem, coloquem as provas na ordem de chamada.

Tudo vai bem, o clima segue tranquilo. Mais da metade da turma já saiu e vou à mesa, conferir se os pacotes estão organizados. Sempre há quem esqueça a ordem correta. 

Ao verificar o material percebo que falta uma prova de Biologia. Uma aluna devolveu a de Literatura, mas a outra, não encontro. Estou ainda procurando quando uma menina chega à porta da sala e me chama, aflita. Ela fala em voz baixa:

-    Fessor, esqueci de entregar a prova de Biologia. Tá aqui na mochila...

A turma segue concentrada na prova. Eu olho nos olhos da menina onde só há aflição. Entre nós dois, um segundo de dúvida e tensão.

Pare de ler um instante, caro leitor, cara leitora, e pense: o que você faria nessa situação? Como resolveria o problema...?

Segue a cena. Pergunto a ela: 

-    O que houve?

-    Eu saí junto com uma colega, estávamos conferindo o gabarito, acabei me confundindo e guardando uma das provas na mochila...

Olho novamente os olhos da menina onde a aflição parece antecipar um possível não...

-    Tudo bem, pode me dar a prova.

Ela estende a folha, quase não acreditando.

-    Tudo bem? Vai aceitar a prova?

-    Você alterou alguma coisa no que tinha feito?

-    Juro que não, fessor!!!

-    Tudo bem, pode ficar tranquila...

A menina vai-se embora e eu volto à rotina da fiscalização. Seu olhar aflito e surpreso não me sai da memória. Quando o último aluno entrega seu trabalho vou para o intervalo sem deixar de pensar no que aconteceu. Sinto-me chamado a dar um passo a mais, a fazer daquele incidente um momento educativo. Escrevo um bilhete e vou até a sala, entregando-o à aluna. Ele diz:


Isabella,

Quando você me falou sobre a “prova esquecida”, numa fração de segundo três possibilidades passaram pela minha cabeça:

1.    Tudo bem, isso acontece, essa menina está falando a verdade, recebo a prova e fim do problema.
2.    É um golpe, tudo foi premeditado, ela corrigiu o que precisava e está correndo o risco do professor engolir a isca e ver no que dá.
3.    Foi realmente um esquecimento, mas ela se aproveitou para corrigir a prova antes de devolvê-la.

Optei, na hora pela primeira hipótese. Primeiro porque é o meu jeito de ser: CONFIAR. Segundo por você mesma. Te conheço pouco mas já aprendi a admirar seu jeito participativo, sua liderança positiva, sua alegria, sua capacidade de ser e de fazer amigos.

Mas tudo na vida nos ensina. O errado não é errar. Errado é não aprender com os erros. Um erro que nos ensina, cumpre uma importante função. Nos faz melhores, nos faz crescer.

Nesse caso, como o erro foi apenas uma distração, fique mais atenta, corrija-se e vamos em frente.

Sempre, na confiança, um abraço carinhoso,

Eduardo


Volto à minha rotina de trabalho. Mas a história não tinha terminado. No dia seguinte, ao abrir a porta da minha sala, encontro um bilhete cuidadosamente dobrado que diz:

Eduardo,

Confesso que em seu lugar também passariam pela minha cabeça todas aquelas hipóteses que passaram pela sua. É uma situação difícil, na qual não posso provar que estou falando a verdade. Mas gostaria de afirmar novamente que me distraí ao entregar a prova, e guardei a de Biologia. Quando fui verificar nas apostilas de aula uma questão da prova, lá estava a avaliação! Fiquei atônita, e sem pensar fui diretamente ao seu encontro explicar-lhe o que havia acontecido.

Admito que não tinha muitas esperanças, pois em seu lugar teria as mesmas desconfianças. Entretanto, fui honesta ao falar que nada havia sido corrigido, pois não modifiquei “uma vírgula” sequer em minha prova.

Estou super feliz por você ter aceitado a minha prova. Mas, mais que isso, por ter dado a mim um voto de confiança. Gostaria que você soubesse que esse voto teve muito valor para mim e que, ao longo do ano (e da vida) tentarei mostrar que a sua atitude, que a chance que você me deu não “foi em vão”.

Mais uma vez obrigada.

Um grande abraço,


Isabella

Olho para aquele papel, leio, releio e fico pensando: 

Educar é perigoso, confiar é perigoso, acreditar é perigoso, amar, então, é perigoso demais. Na verdade, tinha razão o Guimarães Rosa que dizia: “Viver é perigoso...”. Mas absolutamente essencial...  

Saio da minha sala e tenho minha atenção chamada para o painel pintado pelo Pe. Nelson nas paredes do andar da Formação Cristã. Está lá desde 1987. Todos os dias passo por ele, mas hoje, algo se destaca nos versos de Thiago de Mello ali escritos, no seu “Estatuto do Homem”:

“Fica decretado que o homem não precisa nunca mais duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem como a palmeira confia no vento.
Como o vento confia no ar, como o ar confia no campo azul do céu
O homem confiará no homem como um menino confia em outro menino
."

E eu acrescento: 

O homem confiará no homem como um professor confia no seu aluno... 

Como o aluno confia no seu professor...

 

Eduardo Machado
Professor dos Colégios: COPANSC, Loyola, Sto. Antônio e Imaculada Conceição - Belo Horizonte/ MG
https://www.facebook.com/eduardo.machado.9026040