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O giz da educação vol.1 nº.4 (2021)
ISSN 2764-0477

Educação sem rótulo.

Ao pegar um ônibus lotado, agora mesmo no pós-pandemia, não pude me furtar de ouvir a conversa entre duas adolescentes, no crepúsculo do dia. Uma saia da aula e a outra do trabalho. Pelo que pude compreender se tratavam de duas amigas, que diante das contingências que a vida nos impõe, tiveram os horários escolares alterados porque uma delas precisava de um trampo. Cada qual com um celular e respectivos fones de ouvido, que obviamente seriam acionados somente em caso de emergencial falta de assunto, o que pude perceber, seria muito improvável entre ambas. 


- Nossa, quase na hora de terminar meu horário de trabalho, chegou na loja uma cliente tão chata, mas tão chata, cara...


- Véi, gente chata é fogo! O Júnior também é seu professor à noite? 


- Cê tá falano do Júnior, professor de matemática? Não! À noite é a Helenice. Nossa! Essa é chata, cara!


- Aí véi, eu já ouvi falar dela. A Keila, irmã da Kelly, disse que ela levou uma encarada do Azeitona outro dia...


- Sério? O Azeitona mete medo em alguém?


- Pois é! Ele deu um chega prá lá na profe. Ele me contou que tava todo mundo cansado, chovendo muito, e ela insistia em terminar um exercício sobre matriz. Onde já se viu, em plena sexta-feira, ter como  5º horário, a megera da matemática. O Azeitona chegou o dedo no nariz dela e disse:


- chamano prá briga Profe. A gente até que te respeita, mas hoje cê tá passano dos limites. Vâmo combiná, se você conseguir explicar para que serve essa matriz no meu trabalho, a gente fica até o fim.


- Nossa?!!! Risos. E aí?


- Ah! Cara, cê não sabe disso?


- O Azeitona tá em outra sala, com outra turma. Não converso com ele!


- Com a turma na maior muvuca, a Profe. foi até a coordenação pedir ajuda e, de repente o vigia da escola, surgiu. De cassetete em punho, o vigia ameaçou os alunos... 


Sem finalizar o caso, a adolescente agitou o buzu ao gritar para o motorista:


- Péra ái motô, eu vou descer aqui. 


- E aí Véi, cê vai no níver da Estela amanhã? Perguntou ao se levantar para sair do ônibus.


- Sei não cara! Tô chegano muito tarde em casa, e minha mãe já tá pegano no meu pé.


Aproveitei a vaga no assento e ali me alojei. A adolescente ao meu lado, pegou o celular, procurou uma música, colocou os fones de ouvido. Dali para frente, nada mais importava.


Naquele momento, pensei: 


- Como nos comunicar com essa geração? Essa turma é capaz de se conectar com vários assuntos simultaneamente, em diversos ambientes, num eterno liga e desliga, mas não estabelece vínculos e ligações entre os temas.


Com base nisso procuramos produzir e conduzir pessoas pela estrada da educação de modo a permitir o acesso amplo e seguro, numa linha tênue entre o rebuscamento acadêmico e a simplicidade do cotidiano. Autonomia responsável, resiliente e ética. A nossa missão é a educação sem rótulo. Por uma educação desprovida das amarras dos guetos metodológicos. Contada e encantada pelo simples.

Patiluc


“Sou a Patrícia Luíza Costa. Milito na área educacional há mais de 25 anos. Atualmente, ainda que sob a experiente simplicidade do meu olhar, como produtora cultural primo pela produção de conteúdos que possam fazer a diferença na vida das pessoas e possam criar o desejo da leitura, do conhecimento e do sentimento de pertencimento.