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O giz da educação vol.2 nº.1 (2021)
ISSN 2764-0477


Saia justa!


Quando eu vi o Léo coçar a cabeça, se esforçando para ler aquele texto simples, em voz alta e para toda a turma, pensei comigo mesma: não deveria tê-lo exposto daquela maneira. 


Acontece que como estávamos retomando as aulas presenciais, quis usar uma dinâmica que pudesse, de certa forma, quebrar o gelo, mas o que eu quebrei mesmo foi a minha cara. A ideia era que, sob o meu comando, cada aluno pudesse ler, em voz alta, o enunciado dos problemas matemáticos que eu havia selecionado para aquela semana de trabalho.


Tudo bem! Uma vez que o caldo já estava mesmo entornado, tentei me redimir pedindo para a Karla ajudá-lo naquela tarefa.


- Então Karla, eu quero que você leia o texto com o Léo.


- Como assim professora?


- Você lê e o Léo repete. Sem problemas?


A Karla colocou a mão na cintura e me respondeu, na lata:


- Todos os problemas.


- Como assim Karla? Respondi sem entender nada.


- Todas as vezes sou eu quem socorre o Léo, tanto na leitura quanto na soma e na subtração. Não dá para chamar outro? Chama o Zeca. 


-  Ah! Eu não! O Léo é burro demais.


- Mas ele é o seu amigo, né? Respondeu Karla imediatamente. Na hora de soltar pipa, vocês estão sempre no mesmo grupo de amigos.


- Ah! Mas ele é burro mesmo e ele sabe disso!


Quando o Léo deu aquele sorriso amarelo, o meu então... nem se fala, já era vermelho de vergonha, resolvi intervir naquela confusão, que afinal eu mesma criei.


- Vamos parar com esse bullying. Que negócio é esse! Disse em tom enérgico.


- Ele é burro mesmo! Repetiram o Zeca, o Sandro, o Edson, o Ângelo, e os outros alunos, com certeza concordavam com aquela máxima, ainda que em pensamento.


- Quero silêncio, já disse. Quantas vezes a Escola vai precisar explicar o que o Léo tem? Alguém pode me responder?!


- Você não disse para ficarmos calados? Zombou o Zeca, lá do fundo da sala de aula.


- Oh Zeca, eu não estou para brincadeira. Diga-me o que você entende por dislexia.


- Gente preguiçosa! Respondeu num piscar de olhos.


- Quem disse isso?


- Você perguntou o que eu entendia e eu respondi. 


- Karla, e você?


- Eu compreendi que dislexia é falta de atenção. A Coordenadora até disse que é a doença do salta os finais das palavras.


Num lapso de segundo vi o quanto os quase dois anos de distanciamento social, por conta da pandemia, corroeu o aprendizado. Vi que seria necessário esclarecer essa dúvida, que para as crianças era certeza, mas como fazê-lo? No meu planejamento de aulas não constavam as temáticas bullying e dislexia. Fui salva pela Coordenadora ao pedir licença para usar aqueles minutos finais para dar um recado. Tempo esgotado, fim de aula. Ufa! Que alívio. Dali fui para outra turma.


Ocorre que aquele mal entendido chamou a minha atenção e passei a observar o implacável julgamento e consequentemente, a dureza quanto à aplicação das regras de convivência impostas pela meninada. Eles continuavam a tratar o Léo como preguiçoso, disperso, desatencioso e, de algumas brincadeiras o excluíam. Não me contive e fui até a Coordenação.


- Estou sabendo da situação. Não conseguimos falar com os pais do Léo. Conversamos com a avó do menino, até oferecemos aulas de reforço no contra turno, mas você sabe, não podemos obrigar ninguém. Escola é escola! Respondeu-me a Coordenadora, em tom de desesperança.


- Entendo! Respondi, meio que frustrada.


Resolvi fazer a minha parte. Daquele momento em diante, meu planejamento passou a conter bingos, dominós e outros jogos simples, de baixo custo e alto impacto, que não só facilitaram a compreensão do Léo, mas tornaram a matemática mais acessível para os outros alunos. 


Fiquei hiper feliz ao ver os coleguinhas disputando a presença do Léo nos grupos que formamos para jogarmos xadrez humano. Mais legal foi ver o Léo ensinando o Zeca a simplificar os problemas matemáticos, racionalizando-os em símbolos e gráficos. 


Meu nome é Alexandra. Sou professora do nível fundamental, fui contratada para o ensino da matemática para crianças entre 7 e 10 anos de idade e, trabalho numa escola do interior do país. 


É muito bom poder compartilhar a minha história, porque como outros professores, às vezes somos colocados contra a parede e não temos todas as respostas, nem somos treinados para os imprevistos.


Patiluc

“Esta é uma obra de ficção. O uso de metáforas foi a maneira encontrada para contar as vivências da autora, ao longo dos  seus mais de 25 anos na área da educação. Atualmente, ela atua como Empreendedora Cultural e mantém a crença de que educação também é sinônimo de cultura.