Logo Parimpar
youtube-Parimpar
Linkedin-Parimpar
Facebook-Parimpar

O giz da educação vol.2 nº.2 (2021)
ISSN 2764-0477


E nem?!


Meus alunos estão uma pilha de nervos por conta do Enem. Costumo dizer que para a redação, escrever é um ato posterior à leitura, eles riem e endeusam os aplicativos. Eu cá, sou dos tempos em que as terminologias e significados das palavras eram encontrados no buscador físico, o dicionário impresso. 


Sou Aline, professora em tempo integral da disciplina língua portuguesa, com ênfase em redação, para adolescentes.  Adoro o que faço, porém, ensinar a produção de textos coerentes, tem sido tarefa árdua.


Ainda que possa parecer esdruxula, a estratégia traçada pelo país para o ensino superior pode ser comparada ao privilégio às rodovias em detrimento às ferrovias, afinal as notas do Enem ajudam grande parte dos estudantes de baixa renda a carregarem sob as costas duas responsabilidades ao se formarem: a primeira, o endividamento junto ao Fundo de Financiamento Estudantil (FIES) e a segunda, a busca por trabalho, na área específica de graduação. 


Políticas à parte, afinal devo me ater à minha atuação junto aos alunos, há aproximadas três semanas pedi que lessem um clássico: Dom Casmurro, de Machado de Assis. Além da leitura eles deveriam esboçar um texto, considerando as regras redacionais sobre o que Machado de Assis queria transmitir.


Dentre todos os textos entregues, selecionei três para discuti-los em sala de aula, com características de compreensão distintas: no primeiro o adultério era a temática central; no segundo, as questões que envolviam a violência de gênero ao considerar o amor doentio entre um homem mais velho e uma mulher jovem e bela; já o terceiro, trazia no bojo as questões segmentárias de classe social, que, de acordo com o analista, poderiam servir de exemplo para os dias atuais.


Infelizmente, mais uma vez, na produção escrita pude notar as pegadas deixadas pelas buscas na internet, perceptíveis a olho nu, visto que nem se deram ao trabalho de usarem sinônimos, ou então, ‘escreverem a mesma coisa, de uma maneira diferente’. Não me decepcionei! A geração Z é assim mesmo, bem prática e despojada. 


- Turma, li todos os textos e gostaria de discutir três deles (blá, blá, blá) ...Vamos por partes. Tem sido recorrente nas manchetes de jornais e mídias televisivas as questões que envolvem a violência de gênero. Nem finalizei a frase e Cláudia, uma das melhores alunas da turma, fez uma intervenção:


- Concordo professora. Inclusive posso contar um fato que ocorreu bem próximo a minha casa?


- Se for pertinente ao tema, sem problemas.


- É sim! E prosseguiu... Depois de alguns anos de casados, meus vizinhos se separaram e volta e meia, o ex-marido fazia o maior barraco na porta da casa da ex-mulher. Chegamos a chamar a polícia diversas vezes, até que na semana passada, soubemos que ele tentou matá-la.


- Sério? Questionou Fábio que sentava ao lado de Cláudia.


- Seriíssimo! Confirmou Cláudia. Ela fez exame de corpo de delito e tudo o mais. Segundo informações, ela já registrou diversas queixas na polícia.


- Então, se pudéssemos transportar a história contada por Cláudia para o livro, quem a ex-mulher representaria?


Depois de um longo silêncio, Mara respondeu:


- Capitu!


- Muito bem, retruquei imediatamente. 


- De certo, o ex-marido seria Bento Santiago, completou Cláudia.


- Quer dizer que houve adultério? Perguntei.


- Acho que os ciúmes do ex-marido, no caso o Bentinho, gerou todo sofrimento e angústia demonstrados no percurso da leitura. Disse Geraldo.


- Ótima discussão! Regozijei-me. 


- Geraldo continuou... O legal no texto de Machado de Assis é a possibilidade de transportamos para a atualidade. Acho ele genial!


- Muito bom Geraldo. Assis usa a narrativa psicológica ao relatar as experiências por ele sentidas, ou seja, ele conta a história usando a memória e, portanto, algumas coisas ficam perdidas, porque somos falhos no processo mnemônico. Na verdade, essa é uma estratégia muito comum no impressionismo. Cláudia fez o mesmo ao nos relatar o fato ocorrido próximo à sua residência. Ela relatou a partir do sentimento dela, e, é claro, para dar mais cor ao fato, usou de dados reais, tais como: polícia, registros, tentativa de homicídio, exames periciais. 


- E como podemos enxergar os outros dois vieses mencionados por você, professora?


- Normalmente, identificamos esse tipo de conduta, ou seja, a violência de gênero, nas classes de baixa renda. 


- Opa! Gritou lá no fundo da sala. Isso é discriminação!


- Será? Respondi deixando uma pulga atrás da orelha de quem me interpelou e prossegui. Isso vale para o adultério, ainda que as pessoas imaginem a culpa imputada ao sexo masculino, a mulher é sempre tida como responsável pela indução do homem ao crime. Essas são as regras impostas pelos costumes, está no imaginário popular.


- É isso mesmo! Não podemos usar decotes, saia curta, roupas mais ousadas, nem pensar... tudo é motivo para adultério... Juliana disse isso em tom de revolta.


- Pois bem, vejam que maravilha o texto de Machado de Assis. Ele viveu um tempo de transformações: abolição da escravatura, proclamação da república, modernização do país, com a chegada de imigrantes, etc, etc, etc, confirmem essa informação com a professora de História. 


- É! O Machado é o cara! Disse Cláudia ao assumir que passou a gostar do escritor e compreender a mensagem por ele transmitida.


- Agora quero que escrevam um texto, com começo, meio e fim sobre o que conversamos, ou seja, sobre o universo de Dom Casmurro. Vocês têm 30 minutos para fazer essa atividade.


Patiluc

“Esta é uma obra de ficção. O uso de metáforas foi a maneira encontrada para contar as vivências da autora, ao longo dos seus mais de 25 anos na área da educação. Atualmente, ela atua como Empreendedora Cultural e mantém a crença de que educação também é sinônimo de cultura.