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O giz da educação vol.3 nº.1 (2021)
ISSN 2764-0477

Zé, sobrenome Ninguém!

Fiz o curso de direito, numa escola lá da minha cidade, mas só Deus sabe tudo o que passei para finalizá-lo. Minha mãe tem muito orgulho de mim porque de toda a família, sou o único ‘adevogado’, como ela mesma dizia, o primeiro com um canudo nas mãos.


Não tínhamos muitas posses, meu pai era ajudante de caminhão, não tirava o pé das estradas..., porém, as lembranças que tenho dele na minha memória foram sempre contadas por mamãe, porque sinceramente, não me lembro de tê-lo visto. Se algum dia ele se fez presente na minha vida, por certo que sim, ficou distante num passado já empoeirado e sem perfume.


Éramos nove irmãos e mamãe lavava roupas para quase toda a vizinhança. Assim ela se mantinha em casa, um barraco de três cômodos, que vovô deixou como herança, e repousava os olhos sobre nós. Cinco meninas e quatro meninos...e, dentre todos eu o rapa de tacho. Minha mãe sabia ‘mal e porcamente’ escrever o seu nome, juntava a letras que conseguia, mas, para ela, sei que era difícil compreendê-las quando unidas. Logo, logo as meninas se tornaram mocinhas e foram trabalhar ‘nas casas de família’ da cidade. Alguns de meus irmãos se casaram, outros nem tanto, mas os netos, ah, esses quase sempre se encostavam lá em casa e eu, como sendo o mais novo, tinha que ajudar mamãe com a meninada. Era uma tortura! 


Eu fazia uns bicos pela redondeza, não queria nada em horário integral porque isso atrapalharia meus planos de um dia ter um diploma de nível superior. Então eu consegui um turno na padaria do Seu João como padeiro (fiz um curso oferecido pela Divina Providência). Eu até que era bom no negócio, todo mundo elogiava o pão doce que eu fazia. Trabalhava das três da madrugada até às sete da manhã. Mas trabalhar naquele turno não era fácil, não tinha vida social. Queria ir para as baladas, curtir a minha juventude, ora bolas e, cadê o ânimo? Então fiz um curso de informática e comecei o inglês, disseram que é importante colocar isso no currículo. O dinheiro tava curto e então, tive que desistir do segundo curso. Minha mãe, vendo o meu esforço, entrou na jogada para conseguir um trampo melhor para mim e conversando com uma de suas freguesas de lavação de roupa, me disse que havia uma oportunidade lá no restaurante do Lojão, como atendente, bastava que eu levasse o meu currículo.


- Putz! Pensei. Prá quê levar currículo?  Prá  balconista? ligado????


De todo jeito, fui numa lan house e imprimi um modelo de ‘Curriculum Vitae’. Procurei o mais maneiro, do tipo para impressionar logo de cara e fui conversar com o Jamil do Lojão.


- Bom dia Seu Jamil. A minha mãe disse que o Senhor tava precisando de um balconista? O meu currículo tá aqui.


- Deixa aí no balcão, quando eu puder darei uma olhada.


- Poxa vida! Tive um trabalhão para escolher aquele design e ele nem deu a mínima?!!!


Saí dali revoltado. Aproveitei para dar uma bordejada pela periferia e deixei algumas cópias do mesmo currículo nos locais em que vi estampada a necessidade de empregados.


Cheguei em casa e disse para minha mãe:


- Com ou sem trampo, vou fazer faculdade e vai ser de direito. A gente é desrespeitado o tempo todo. nervoso, tá ligado!!! Todo mundo quer que a gente tenha experiência, mas não dá oportunidade? Só para bandido não se pede currículo, tá ligado!


Mamãe respondeu calmamente:


- Tá ligado sim meu filho! Currículo de bandido é ficha criminal! E deu uma gargalhada. Mas prôs iniciados? Precisa de experiência não!


Voltei lá na lan house e procurei na internet o curso superior mais em conta, aquele que coubesse no meu bolso então, me inscrevi ali mesmo, num curso a distância. 


- Seja o que Deus quiser! Depois de um ano eu vou tentar um financiamento, mas eu vou conseguir chegar lá.


Quatro anos se passaram e na formatura, o Jamil, meu patrão tava lá, consolando minha mãe, que não parava de chorar de tanta felicidade. Meus irmãos???? Somente duas delas me deram o prazer de tirar uma foto comigo, os outros estavam muito ocupados com os seus afazeres.


Ainda não consegui atuar como profissional, porque os escritórios de advocacia querem estagiários sem remuneração. Continuo lá no Jamil. Tô estudando para fazer um concurso público, me matriculei num cursinho. Quero ser polícia, mas se não der, quero ser qualquer coisa no serviço público, eu quero ser alguém.


- Eu sou o Zé e o meu sobrenome? Ninguém! Tá ligado?!


Patiluc


“Esta é uma obra de ficção. O uso das metáforas foi a maneira encontrada para contar as vivências da autora, ao longo dos seus mais de 25 anos na área da educação. Atualmente, ela atua como Empreendedora Cultural e mantém a crença de que educação também é sinônimo de cultura.