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O giz da educação vol.3 nº.2 (2021)
ISSN 2764-0477

Quem cuida de quem?!


Cerol estava com seus 12 anos de idade quando estreou no mundo do crime. Pequenino, ele era ligeiro no assalto a mão armada e tinha disposição... e que disposição. O cabelo descolorido denunciava o seu estilo. Despojado e objetivo nas suas ações, foi logo alçado à chefia da boca e Thaisa, encantou-se por aquele carinha, maroto, nem tão gostoso, porém poderoso e rápido no gatilho. No início beijos, abraços e presentinhos. Naquela época ela vivia enganchada com ele, batizado como Wellington, filho do Luã com a Tiara, todos moradores da Vila do Buraco Quente. 


Acomodava-se Thaisa em berço esplêndido, como a ‘garota’ da chefia, ainda que a disputa fosse grande, porque o sonho ‘das mina’ era ser ‘da chefia’. E mulher??? Sabe como é!!!...- diziam as 'poderosas'. Contudo Thaisa se garantia, acreditava que a juventude seria para sempre.


Éh! No entanto, um ano ‘na cola,’ deu canseira no Cerol e os beijos trocados a todo o momento, se transformaram em hematomas que disputavam espaço na pele de Thaisa, entre as tatoos e as lágrimas de quem sabia que aos 14 anos de idade, já estava passada, envelhecida e esquecida. Por um ‘des - cuido’, Thaisa engravidou e aí, largou a escola. Passou a bater boca com as outras ‘mina da chefia’.  Os becos da vila, antes passarelas por onde Thaisa desfilava como a ‘dona do pedaço’, tornou-se palco de barracos memoráveis, nos quais ela e outras adolescentes da ‘sofrência’, se juntavam para reivindicarem seus direitos como 'abandonadas' pelo tráfico. 


O esforço deu em nada! A bandeira de violência de gênero, que a ensinaram a erguer, nos cursos oferecidos pelas ONGs que aleatoriamente passavam pela comunidade, rendeu-lhe a fama de barraqueira, interesseira, despeitada e até de atrevida. E a pensão alimentícia? 


- Faz me rir! Dizia Thaisa.  Juiz nenhum tem poder sobre o tráfico!  O máximo que eles fazem é botar a polícia na caça, como cães farejadores. Aí eles trancafiam os nossos homens, a gente vai visitá-los (e é penoso...), depois eles fogem. Então começa tudo de novo! Um saco isso! Quer saber, a negociação aqui é ‘olho por olho, dente por dente’. A gente vai na justiça só para constar, prá fazer ‘tutu’, prá ameaçar! Só isso!


De todo jeito Thaisa tinha que arrumar alguma coisa, um trampo qualquer para sustentar aquelas crianças, três ao todo, feitas na sua juventude. Carregar a pecha de desocupada, jamais! Conseguiu finalizar o ensino fundamental e no Centro Comunitário da Vila vislumbrou a possibilidade de melhorar de vida. Era um cartaz convidando aos interessados para se matricularem no curso de cuidador de idosos.  Três meses? De graça? E com ajuda de custo?


- Nem sei para que é isso direito, mas dentro! Thaisa viu vantagem.


Empoderada Thaisa, agora Cuidadora de Idosos, conforme orientação, se inscreveu em vários sites que ofereciam oportunidades de trabalho nesse segmento. E mesmo sem experiência, não tardou para ser chamada. Seu maior dilema foi com quem deixar os filhos, porque a mãe, alcóolatra não tinha condições de olhá-los. A solução foi chamar a Jennifer, uma menina de 12 anos de idade, sua irmã por parte de pai, que por uns trocados, topou a missão.


Thaisa apresentou-se na casa dos Aquiles, para cuidar do Seu Afrânio, um senhorzinho de 97 anos de idade, que sofria de Alzheimer. Acamado, a única exigência da família era que ele fosse higienizado frequentemente. Trabalho pesado, mas Thaisa aguentou o trampo, o problema foram as inúmeras chamadas pelo celular. 


- Thaisa, desapega desse zap, por favor. Pedia a filha do Seu Afrânio invariavelmente.


Diante das reclamações que se avolumavam, Thaisa teve que deixar a casa dos Aquiles, entretanto conseguiu se manter no banco de reserva do tal site e quase sempre era chamada para substituir o plantão de alguma colega. Conseguia, dessa forma, receber até mais do que se estivesse fixa cuidando de algum idoso.

 

Assim foi levando a vida. Como manicure, um trampo que aprendeu com outra colega, trabalhava num salão de beleza, no Beco das Garças, lá mesmo na Vila onde morava.  A Jennifer também engravidou do Caó, o olheiro do Bicho e não poderia mais ficar com as crianças. Puxa vida! Logo agora que Thaisa se matriculou no EJA e havia  decidido dar sequência nos estudos para se tornar esteticista. Que sufoco! Afinal quem cuida de quem?!!!


Patiluc

“Esta é uma obra de ficção. O uso das metáforas foi a maneira encontrada para contar as vivências da autora, ao longo dos seus mais de 25 anos na área da educação. Atualmente, ela atua como Empreendedora Cultural e mantém a crença de que educação também é sinônimo de cultura.