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O giz da educação vol.3 nº.4 (2021)
ISSN 2764-0477

Geração Neet ou simplesmente Nem-Nem


O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) publicou o resultado de uma pesquisa em que 23% da população brasileira, entre 15 e 29 anos de idade, nem trabalha, nem estuda. Esse fenômeno também se aplica a outros países, claro, em menor escala. Lamentavelmente esse é um evento afeta a economia brasileira em curto, médio e longo prazos. 


Sou Cecília, uma professora universitária que preocupada com a situação dos jovens na minha cidade, organizei um grupo de pesquisa sobre o impacto da inatividade na economia na minha região, por conta disso, fico atenta aos dados estatísticos. Na faculdade em que leciono, oriento meus alunos a realizarem as apresentações de seus trabalhos e resultados de pesquisas, de um modo mais digerível, melhor compreensível. Destaco que não gosto de dirigir, tão pouco possuo carta ou habilitação e me locomovo utilizando as conduções  urbanas disponíveis.


Pois bem, outro dia, ao sair da escola sob uma forte chuva, pedi um transporte móvel, ao que, depois de aguardar alguns minutos, fui prontamente atendida. O motorista era um rapaz de vinte e poucos anos de idade.


- Boa noite, Sra. Cecília?


- Josué? Retruquei.


- Sim! 


- Boa noite! Respondi tão logo entrei no carro.


Minha viagem não seria longa, mas como boa pesquisadora, comecei a minha investigação:


- Há muito tempo que você opera com esse aplicativo?


- Dois anos e meio.


- E você gosta de dirigir? Observo que você é bem jovem...


- Eu estou no último ano de engenharia. Trabalhava no comércio e fui demitido. Como ainda não consegui nada na minha área, me vi forçado a trabalhar no aplicativo.


- Sério? Fiz cara de espanto. Então, você mora ainda com seus pais?


- É melhor, não é mesmo?! Ajudo meus pais quando posso. Eles não pegam no meu pé.  Não trabalho o dia inteiro aqui porque tenho que estudar. O que eu ganho dá para o gasto, consigo viajar e namorar e ainda pago o aluguel deste carro. Mas vou comprar o meu logo, logo. Aí já fiz os cálculos, vai sobrar uma graninha boa.


- E o curso de engenharia?


- Está difícil. As pesquisas dizem que não houve crise na construção civil, mas para nós que não temos QI (Quem Indica) ... A Senhora deve imaginar a dificuldade. Pois é, me desculpe! Eu vou usar essa rota, porque o aplicativo está indicando fluxo de tráfego melhor, tudo bem para a Senhora?!


- Compreendo! Sim! Fique à vontade, assim chegaremos mais rápido.


- Porque você escolheu a engenharia então?


- Não sei ao certo, talvez motivado pelo exemplo de meu pai, ele era pedreiro. Na minha casa, meus irmãos mais velhos não frequentaram curso superior. Eu e minha irmã, somos gêmeos e os mais jovens lá de casa. Aí, já viu, não é? Todos queriam que estudássemos, que nos tornássemos doutores. E também porque, na minha cabeça, no canteiro de obras, o engenheiro teria liberdade para trabalhar, sem patrão, nem chefe incomodando. Eu sempre quis ter o meu próprio negócio, ter liberdade para fazer o meu horário, estabelecer a minha meta. Então pensei é melhor eu ser engenheiro que pedagogo, por exemplo.


- Como assim?


- Engenharia, assim como medicina e advocacia dão mais status! Josué me respondeu prontamente. Quanto ao curso superior, num concurso público, pelo que me dizem, meu currículo me pontuará melhor. Chegamos!


- Obrigada Josué, pode ficar com o troco.


- Obrigado e boa noite!


Um importante pesquisador, o Schultz, dizia que a educação é um componente do fator humano capaz de qualificar a mão de obra, equalizando diferenças entre países e regiões, assim como as diferenças de renda no interior da sociedade. Mas como fazer isso tornar realidade se na educação brasileira, nosso discurso ainda remonta os tempos da descoberta? Lembro-me da pesquisa que fiz sobre Rui Barbosa e suas viagens à Europa para avaliar os modelos de educação, selecionar o que melhor coubesse no plano de governo da República, isso só para não retroceder mais no tempo...


Entristeço-me em pensar que oferecemos vagas para os jovens nas escolas de um jeito que atualmente,  há áreas do conhecimento que podem ser encontradas em cada esquina. Queremos nossos jovens críticos, reflexivos, capazes de analisarem textos de, por exemplo um James Joyce ou ainda, capazes de participarem de grupos de trabalho mundial sobre nanotecnologia, porém, nos esquecemos de ensiná-los a conquistarem o arroz com o feijão do dia a dia, considerando o que pede o mercado de trabalho e aí, onde arrumar forças para concorrer a uma vaga que exija mais expertise, com remunerações dignas e respeitosas, e mesmo o tal status, bem lembrado por Josué. Ou pior, quando isso fazemos, escolhemos os mesmos caminhos que nossos avós, nossos pais nos ensinaram, bem como dizia Belchior (na música Como nossos pais).

 

Enfim, reproduzimos na educação, o sonho de ontem aos jovens de hoje, qual seja, resumidamente, estudar para se tornarem servidores públicos porque intuitivamente sabemos que para isso, basta uma qualificação tradicional, além, é claro, da sorte nas múltiplas escolhas da vida. Se houver mais fases nos concursos da vida, a decoreba, na certa, será a solução! E se de todo isso não der certo, o empreendedorismo de subsistência, lamentavelmente será o caminho! Quanto a essa escolha... não temos responsabilidade sobre isso, lavamos as mãos!

 

Bem, o melhor a fazer agora será checar os resultados das pesquisas de campo que meus alunos estão realizando. Amanhã será um dia bem pesado! Tenho que finalizar a revisão do trabalho de dois orientandos, participarei de uma 'live' e ainda terei reunião de colegiado. Nossa!!! Já estou exausta só de pensar...


Patiluc


“Esta é uma obra de ficção. O uso das metáforas foi a maneira encontrada para contar as vivências da autora, ao longo dos seus mais de 25 anos na área da educação. Atualmente, ela atua como Empreendedora Cultural e mantém a crença de que educação também é sinônimo de cultura.