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MAIS QUE UMA EDITORA - um ecossistema de ideias e vozes

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Curtinhas vol.33 nº.1 (2025)
ISSN 2764-0280



Ehebá e a Cura


Há muito tempo, se ouvia falar de uma indígena chamada Arãdezy, que estava grávida e foi mordida por uma cobra venenosa chamada jararaca.

Todos da aldeia ficaram desesperados ao ver a situação daquela guerreira se debruçando e espumando.

Ao olhar, todos diziam que Arãdezy iria morrer.

Até que seu pai, um grande conhecedor das medicinas naturais, chegou a tempo e em seguida falou:

- "Afastem todos!", e assim foi feito.

Depois que todos se afastaram, ele colocou a mão no bolso, pegou um pedaço de fumo, conhecido por fumo de corda, levou a boca, mascou até soltar um sumo amarronzado e pediu que sua filha o engolisse.

Após ela ter seguido as orientações do seu pai, ela começou a vomitar todo o veneno da cobra. Após colocar o veneno pra fora, ela foi normalizando e parando de espumar.

Seu pai então perguntou:

- "Está se sentindo melhor?"

Ela respondeu que sim, mas estava preocupada com a criança que a esperava. Estava desesperada, com medo que pudesse acontecer algo com seu primeiro filho.

Seu pai logo a acalmou:

- "Fica tranquila, seu bebê está bem. A criança vai vir ao mundo, só sofrerá uma pequena sequela. Ela virá com um tipo de coceira, como uma espécie de escamação, mas não há nada com que se preocupar... Isso não afetará sua convivência e não será com frequência. Toda vez que a cobra mudar de pele, a criança sentirá essa coceira escamada. Isso acontecerá porque ele teve o contato com o veneno da cobra".

A mãe ficou tranquila, porém atenta as orientações daquele homem sábio.

Após nove meses, Arãdezy deu a luz a um pequeno guerreiro chamado Wyrá. A criança nasceu linda e saudável.

Quando completou seis meses de vida, a tal esperada coceira apareceu.
Sua mãe não se assustou, pois já sabia do que se tratava e assim a criança foi crescendo.

A cada seis meses aquele problema aparecia. Era um pequeno incômodo, mas nada que interferisse no seu dia-a-dia.

Aquela criança cresceu, se tornou adulta e viveu muitos anos, mas sem saber do acontecido. Seu avô continuou sua jornada, ajudando todos e todas que iam à sua procura. Ehebá, como era conhecido, viveu por mais de 100 anos e deixou um lindo e importante legado.

Seu conhecimento ficou marcado pra sempre na memória de quem teve a oportunidade de viver ou ouvir esse relato verdadeiro.

Sua filha fez questão de passar adiante esses ensinamentos para todos e todas que ela tinha oportunidade de contar e o pequeno guerreiro ficou conhecido como: o menino que se salvou do veneno da cobra.

As pessoas faziam questão de acompanhar seu crescimento, pois através do seu desenvolvimento era possível encontrar a pele da cobra. Toda vez que ele começava a se coçar, as pessoas iam pra mata acompanhar a cobra trocando de pele.

Um dia a cobra morreu e aquele rapaz parou de escamar.

As pessoas seguiram contando sua história e os ensinamentos de Ehebá ficaram guardados para sempre na memória de seu povo, principalmente da memória de sua filha, que fazia questão de dizer:
"Eu não morri graças aos conhecimentos naturais do meu pai Ehebá!".

Ela fazia questão de contar pra todos! Principalmente para seus filhos, para que tivessem conhecimento da sabedoria do seu avô e assim pudessem dar continuidade a esses ensinamentos.


Idiane Crudzá -
Mulher indígena do povo Kariri-Xocó, originário de Alagoas.
Ela é a guardiã da tradição do povo Kariri-Xocó.