Logo Parimpar
youtube-Parimpar
Linkedin-Parimpar
Facebook-Parimpar

Curtinhas  vol.3 nº.4 (2021) 

ISSN 2764-0280 

O pão nosso de cada dia

Gercina sentia umas palpitações e se cansava facilmente. Não era normal todo aquele sofrimento. Seu filho mais velho, preocupado com as condições de saúde da mãe resolveu marcar um médico para ela.

Viúva desde muito cedo, Gercina não quis saber de outro casamento. Um namorico aqui, um beijinho acolá, um arrasta-pé outro lá e Cici, como era conhecida, se orgulhava em dizer que tinha um filho advogado e uma filha enfermeira. Cici também não se envergonhava em contar para as pessoas a vida difícil que teve e no consultório, desenrolou o rosário que sempre desfiava para quem não a conhecia.

- Lavei muita roupa prá fora, sabe Doutor. Quando os meninos eram pequenos e o Cecílio, que Deus o tenha, estava acamado, era com esse dinheirinho que eu comprava um pouco de arroz, feijão e fazia a xepa na feira. Pensa bem, eu, uma mulher sozinha, uma quase analfabeta, criando dois filhos, sem marido. Nem casa eu tinha naquela época! Já pensou Doutor!

O médico ouvia tudo em silêncio. Estava ansioso por findar aquela consulta, afinal Silmara, a secretária, passou-lhe uma ligação telefônica, na qual fora informado sobre o estado de saúde de seu filho mais novo. Ele tinha sofrido uma queda na escola, sem sequelas, de acordo com a sua esposa.

- Dona Gercina, seus exames estão bons, mas seu colesterol...

Cici nem o ouvia, precisava terminar o seu discurso e prosseguiu:

- Pois é, Doutor! Para esse meu filho aqui estudar... só Deus sabe o que passei. E hoje, graças a Deus, ele paga o meu plano de saúde. Imagina o Senhor se eu tivesse que ser atendida pelo SUS, com a idade que tenho?

- Dona Gercina a Senhora precisa fazer uma pequena dieta. Precisa diminuir os carboidratos.

- Como assim? O Senhor vai tirar o meu pão? Pelo amor de Deus! Eu adoro pão. Macarrão então? Todo domingo eu faço uma macarronada maravilhosa, não é mesmo filho? Eu contei para o Senhor que aos finais de semana todos vão lá para casa. A minha filha enfermeira, com meus três netinhos. O Diego, a Laura e a Cecília. O Diego, o mais novinho, é a cara do Cecílio... o meu marido, que Deus o tenha! E esse aqui, se casou tem pouco tempo e vai ser papai logo, logo. A mulher dele foi encomendada por Deus. Um doce de pessoa. Graças a Deus, meus filhos deram gente! São tudo na minha vida.

Diante daquele quadro, o filho de Dona Gercina dirigiu-se ao médico com a seguinte pergunta:

- Doutor, é grave?

- De forma alguma. Sua mãe está ótima, só precisa controlar o colesterol. Vou receitar esse remédio e peço que retornem dentro de três meses. Basta tomar um comprimido pela manhã e tenho certeza que conseguiremos ajustar o nível desse colesterol. Os demais exames de sua mãe, repito, estão ótimos!

- Eu não disse meu filho que eu estava bem. Pois é Doutor, sabia que ele trabalha no Tribunal de Justiça? Ele é muito inteligente, acredita que ele passou em primeiro lugar no concurso. E a menina então... trabalha na universidade...

- Mãe, vamos embora. Obrigado Doutor!

- Dona Gercina foi um prazer. A verei dentro de três meses! Tome os remédios direitinho como eu prescrevi.

Patiluc