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Curtinhas vol.4 nº.3 (2021)
ISSN 2764-0280


Bem-dito Freire.


O Paulo Freire, que Deus o tenha, costumava dizer que “ninguém nasce feito, ninguém nasce marcado para ser isso ou aquilo. Pelo contrário, nos tornamos isso ou aquilo. Somos programados, mas para aprender.” E por mais que pessoas, até mesmo alguns acadêmicos, não se simpatizem com ele, tiremos o chapéu para o moço, porque ele tinha razão. Vou lhes contar uma passagem que ilustra bem essa fala dele.


Talua nasceu numa família de médicos. Pai, mãe, avô, avó, tios, tias, enfim, em toda a prole podia se encontrar uma das especialidades dessa área da saúde. A menina cresceu sob os olhares de uma babá, a Nana, que a acompanhou por muitos anos, para ser bem sincera, até depois do casamento, ao aceitar o convite para ser a Nana de Elis, filha de Talua e Luiz Eduardo.


Nana era de extrema confiança, tanto que quando os pais de Talua viajavam, que fosse para uma simples apresentação de trabalhos em congressos, iam tranquilos porque sabiam que Talua estava em boas mãos. E de verdade, ela estava mesmo. Marieta ou Nana era mãe de Alice. Marieta carregava as marcas de um relacionamento abusivo, mas criava com muito amor, carinho e orgulho a filha única, fruto desse casamento mal sucedido. Mas, independentemente dessa história, Marieta se manteve firme à tradição da sua família. De tanto acompanhar sua mãe nos trabalhos nas casas de família, acabou por se encaixar como babá e por lá se acomodou. Viu os filhos, dos filhos, dos filhos dos outros crescerem, se casarem, envelhecerem...


Na casa dos Stewart, sobrenome de Talua, Nana e Alice eram tratadas como se fossem da família, como costumavam relatar. Ao lado da extensa lavanderia da casa, situada num luxuoso bairro da cidade, Nana dividia com Alice um quarto espaçoso, com banheiro, só para elas, os quais elas os mantinham sempre em ordem e limpos. Lá Marieta pode criar sua filha com honra e respeito, repetia ela. Por sua vez, Talua adorava conversar com a Nana, pedir conselhos, contar segredos, jogar conversa fora. 


- Quando eu crescer vou cuidar de você Nana.  Serei sua advogada. Meterei um processo em quem tentar tirar o terreno que você herdou de sua mãe.  Dizia Talua.


- Minha filha, quando você crescer, você vai ser médica, como seus pais. Respondia Nana.


Essa conversa sempre vinha à baila, mesmo com o passar dos tempos:


- Nana, já sei o que vou estudar... arquitetura.


- Menina, não brinca com isso, sua mãe sonha em vê-la médica. E seu pai então? Não vê a Alice, ela está seguindo o meu caminho. Ela já é a babá do Juninho, filho do Henrique, seu irmão.


- Alice merece um futuro melhor, Nana! Deixa que ela faça o curso que ela quiser. Respondia inconformada Talua.


- Ela está fazendo, tanto que o Henrique está pagando o curso para ela. Mas gente como a gente, minha filha, não pode brincar com o destino. Dizia Nana com os olhos fixos em Talua.


- Que destino é esse? Tem endereço, CPF, identidade? Diga onde ele mora para eu ter uma conversa com ele, brincava Talua.


Talua até chegou a frequentar três períodos de medicina, e mesmo sob forte pressão dos familiares, mandou tudo às favas, e deu prosseguimento no curso de artes plásticas. Anos mais tarde, se tornou fotógrafa, especializada em fotografias em preto e branco. Gostava de clicar cenários, pessoas, sentimentos.


Patiluc