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Curtinhas vol.4 nº.4 (2021)
ISSN 2764-0280


O amor é que nem o tempo: não envelhece...


Não é que aos 80 anos de idade Jovita decidiu que iria se casar. Ela, já madura, se encantou por Mário, um rapaz de quarenta e poucos anos de vida. É isso mesmo, aquela vovozinha, viúva, por duas vezes, que não aparentava a idade que tinha, resolveu se engraçar com um rapaz muito mais novo que ela.


Depois de tanto sofrimento, brigas, discussões com os filhos e netos, Jovita conseguiu um horário na Matriz de Nossa Senhora do Pilar, sábado, 12 de outubro, dia de Nossa Senhora Aparecida, santa de devoção, ela entraria na igreja, vestida de branco, mais uma vez. 


Jovita era, como diziam os vizinhos, uma velha bem jeitosa. Ela fazia natação, era disciplinada nas caminhadas que realizava diariamente na pista do bairro, sempre impecável nas vestimentas e quanto ao uso de maquiagem. Jamais foi vista sem rímel, gloss nos lábios e um primer


Voltando ao casamento, os convites, caligrafados, foram entregues um a um pelos noivos, seguindo a ritualística para esse tipo de evento. Todos os moradores do bairro onde ela morava foram convidados. Porém, o salão paroquial acolheria apenas o seleto grupo de padrinhos e familiares, que participariam de uma festa íntima, com música ao vivo e um bolo de casamento, cuidadosamente confeccionado por uma renomada confeiteira.


Enfim o momento!


No dia da noiva, com direito a champagne, caviar e tudo o mais, Jovita se esbanjou. Momentos depois, diante da porta principal da Matriz, a cerimonialista ajeitava o véu da noiva e sinalizava para que os músicos entoassem a marcha nupcial, enquanto o noivo, nervoso, andava de lá para cá no altar, perguntando se Jovita já havia chegado. Tudo certo para a entrada triunfal! À frente um dos bisnetos levava as alianças enquanto o outro, anunciava a entrada da noiva, regando o chão por onde passavam, com pétalas de rosas vermelhas, formando um tapete do mais puro amor. 


Ao ver aquela cena, o noivo bastante ofegante teve um piripaque e foi levado para a sacristia. Na tentativa de manter os convidados calmos, Jovita os tranquilizava. De repente, a notícia:


- Dona Jovita, o noivo teve um infarto e está sendo levado ao hospital. O caso é grave!


Ela, mais que depressa, arrancou o véu e dali mesmo, vestida de branco, ordenou a um dos filhos que a acompanhasse até o hospital. Ora, ora... ela é daquele tempo em que casamento é uma instituição firmada por um contrato de tempo indeterminado:“Prometo estar contigo na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, amando-te, respeitando-te e sendo-te fiel em todos os dias de minha vida, até que a morte nos separe.”  Ufa! Mas dessa vez foi por pouco...!

Meses depois, Jovita mantinha seu marido sob todos os cuidados pós-operatórios. E não é que eles viveram felizes para sempre!


Patiluc